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O Sandrão

Luis Fernando Verissimo

Ideia para uma história. Um homem chega numa pequena cidade do interior e regista-se num hotel. Quando o recepcionista do hotel vê seu sobrenome - digamos, Soviero - arregala os olhos. Depois disfarça e diz:

- Soviero... Soviero... Eu conheci um Soviero. Será seu parente?

- Acho difícil - diz o homem.

Assim que o homem entra no elevador com suas duas malas, o recepcionista pega no telefone e faz uma ligação. Suas mãos tremem.


Vinte minutos depois o homem ouve baterem na porta do seu quarto. Abre a porta. É um homem corpulento que se apresenta como delegado Matias. O delegado Matias não quer entrar. Não perde tempo com formalidades. Diz:

- Olha aqui, Soviero, nós não queremos encrenca.

- O quê?

- O que passou, passou. Vamos esquecer o que houve.

- Não sei do que o senhor está falando.

- E eu não sei o que você está querendo.

- Eu? Nada. Represento uma linha de bijuterias. Vim tentar vender o meu produto nesta região. Se o senhor quiser ver o mostruário...

O homem indica uma das malas sobre a cama, mas o delegado Matias não quer ver nada. Só quer avisar:

- Nem pense em vingança.


Quando sai do elevador, o homem vê um grupo reunido no saguão do hotel. Todos estão falando, mas param de falar quando ele aparece. Ninguém se aproxima. O homem ouve uma voz dizer "Não se parece com ele" e outra dizer "Parece sim, parece sim". Finalmente, um velho se destaca do grupo, examina o rosto do homem e pergunta:

- O que você é do Sandrão?

- Não conheço nenhum Sandrão.

- Irmão? Filho?

- Nada. Não conheço nenhum...

- Só vou lhe dizer uma coisa - interrompe o velho. - Ele mereceu. Está me entendendo? Ele mereceu!


O homem consegue que o apavorado recepcionista lhe indique um bom restaurante perto do hotel. Mal o homem acaba de comer, surge uma mulher que pede para sentar com ele. No hotel disseram onde encontrá-lo. A mulher não é feia. Ela diz:

- Eu sou a Lizete. O Sandrão não lhe falou de mim?

- Eu não conheço nenhum...

- Mas é claro, não podia ter falado. Ele não saiu vivo daqui. Eu não tive nada a ver com o que fizeram com ele, viu? Apesar de tudo que ele fez...

- O que foi que ele fez?

Mas Lizete parece não ter ouvido. Está com o olhar perdido.

- Sandro Soviero, Sandro Soviero... Digam o que disserem, era um homem e tanto.

O olhar de Lizete fixa-se no homem.

- Se você for a metade do homem que ele era...


Depois, na cama, ela insiste:

- Antes, diz o que você é dele, diz!

O homem já está com a cara entre os seios de Lizete. Balbucia:

- Irmão.

- E veio vingar o Sandrão, não veio?

- Vim, vim!

Mais tarde, quase dormindo, o homem pergunta porque o recepcionista do hotel parece tão nervoso. Lizete conta que foi ele quem revelou onde podiam encontrar o Sandrão, para matá-lo. Aliás, o Sandrão estava naquele mesmo quarto, com ela, quando fora trucidado.


O homem então pergunta o que Sandro Soviero fez de tão horrível para merecer ser trucidado. Não ouve resposta, vira-se e vê que Lizete não está mais ao seu lado. Foi avisar os outros que o homem é, sim, parente do Sandrão e está ali para vingá-lo. Dali a pouco, o quarto é invadido por um grupo liderado pelo delegado Matias. Matam o homem. Depois, o delegado Matias abre as malas do homem e descobre, numa, as suas roupas e pertences e, na outra, em vez das armas com as quais o Sandrão seria vingado, um mostruário de bijuterias.


Domingo, 1º de junho de 2008.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.